domingo, 8 de abril de 2012

Um passo atrás, dois à frente!

Vladimir Lênin, líder da Revolução Russa

A política não é uma ciência exata. E nem sempre a concretização dos nossos princípios estão ao alcance das mãos. Muitas vezes o processo é tortuoso e requer avanços e recuos. Na história temos exemplos fantásticos de situações que exigiram decisões graves por parte dos seus protagonistas. Vou lembrar de duas situações: Vladimir Lênin e a NEP; Antonio Gramsci e a política da Internacional Comunista na década de 30.

Os bolcheviques haviam derrotado os russos brancos e a burguesia internacional em uma guerra civil de três anos. O conflito começou em 1918 e terminou em 1921. Durante este período desenvolveu-se o chamado comunismo de guerra, quando ocorreram confiscos da produção de grãos e recrutamento forçado para o trabalho. Representou a militarização da economia e um grande sacrifício para a população russa.

Ao final do conflito o país estava destroçado. O líder da primeira revolução socialista bem sucedida do mundo estava diante de um imenso dilema: como reorganizar a economia de um país destruído? Lênin, em um momento de lucidez típico dos líderes, instituiu a chamada Nova Política Econômica (NEP), permitindo o crescimento da iniciativa privada em diversos setores, em especial a produção de alimentos e distribuição.

Após longos debates internos, o principal líder da revolução socialista permitiu o desenvolvimento da economia de mercado, logo após a derrota do czarismo! Diante da reação estupefata de alguns companheiros de revolução, Lênin formulou a célebre frase: um passo atrás para dar dois à frente! Ou seja, encontrou outros caminhos para atingir os objetivos da revolução, sem abandonar seus princípios, e assim "tomar fôlego" para continuar o processo desencadeado em 1917. Não conseguiu terminar o que começou, morreu em 1924.

O que interessava para Lênin era alcançar a sociedade socialista e se isso significasse um recuo temporário nos objetivos imediatos, não seria vergonhoso. O que mais Lênin criticava era o esquerdismo dos que acreditam que suas convicções são suficientes para mudar a realidade. A correlação de forças é que impõem os limites e possibilidades da ação política e não o voluntarismo das boas intenções.

O irônico é que a estatização da economia só foi acontecer com Josef Stálin durante os planos quinquenais, quando a NEP foi suspensa. Surgiram as fazendas coletivas, estatais, as fábricas administradas pelo Estado, etc.

Lênin também formulou a noção de que no ocidente não poderia ser aplicada a mesma fórmula adotada na Rússia de 1917. Em outras palavras, não seria possível tomar o poder na Europa ocidental como os bolcheviques fizeram na Rússia semi-feudal. Lá, escrevia Lênin, os comunistas deveriam preocupar-se com a conquista da direção das frentes únicas (propostas por Lênin e os bolcheviques no IV Congresso da Internacional Comunista, em 1922, como instrumento de ação política).

Nas mãos de Gramsci, a diferença traçada por Lênin entre ocidente e oriente se transformou em "guerra de movimento" (assalto ao poder, Rússia) e "guerra de posição" (construção da hegemonia, Europa ocidental). A célebre sentença gramsciana nasce aí: enquanto no oriente a sociedade é gelatinosa e o Estado é tudo; no ocidente existe um complexo sistema de casa-matas e trincheiras, onde o Estado é simplesmente o posto avançado ou quartel-general da classe hegemônica. O assalto ao poder é impossível no ocidente.

Pois bem, Gramsci também se deparou com um grave desafio enquanto estava na cadeia. A linha da Internacional Comunista, na década de 30, era de combater o fascismo e a social-democracia europeia, a qual chamava social-fascista. A política da Internacional, já sob a influência do stalinismo, era isolar a social-democracia e combatê-la com a mesma veemência que combatiam o fascismo. Um erro histórico.

Esta política da Internacional possibilitou o desastre da ascensão hitlerista na Alemanha e do fascismo na Itália. Os números das últimas eleições parlamentares alemãs comprovam que o PC Alemão, os socialistas e a social-democracia possuíam força política e eleitoral para contrapor-se aos nazistas, impedindo o avanço sobre o Estado. Só a unidade permitiria a resistência, o que não ocorreu.

Gramsci foi contra a linha da Internacional, antevendo o resultado. Em debates com comunistas na cadeia, Gramsci defendia uma ampla aliança com a social-democracia e os socialistas para derrotar os fascistas. Ainda operava, portanto, na política do período anterior, das frentes amplas. Foi duramente criticado e até combatido, sendo isolado pelos próprios camaradas de partido. Gramsci assumiu a responsabilidade de defender algo terrível para os esquerdistas de plantão: frente ampla.

Após a Segunda Guerra Mundial (Gramsci morreu em 1937), a Internacional deu uma nova virada. Em uma espécie de auto-crítica velada, o stalinismo propôs as Frentes Populares, que aceitariam até a burguesia nacional em sua composição.

O capitalismo estava em situação complexa, o inimigo comum havia sido derrotado, a burguesia assustada com a URSS e a classe trabalhadora em movimento por mudanças. O cenário era propício para transformações mais efetivas. Não à toa, o welfare state europeu se formou no pós-guerra como resposta ao ascenso do movimento operário e para conter o avanço do comunismo no ocidente.

De qualquer forma, os exemplos aqui citados revelam que se o adversário é forte não se pode perder a oportunidade de reunir todas as forças possíveis, preparando os embates decisivos. Também são histórias/lições que nos ensinam não temer as decisões difíceis, mesmo quando elas, aparentemente, nos desviam dos nossos sonhos.

domingo, 2 de outubro de 2011

O retorno do Blog do Protásio: Golbery e as viúvas do Regime Militar

O Blog do Protásio reabre seus trabalhos a partir de um texto, escrito por mim, sobre a polêmica (ainda) instalada na cidade sobre a homenagem ao Gal. Golbery do Couto e Silva, figura fundamental para compreendermos o Regime Militar.

Gal. Golbery do Couto e Silva
Em 2009, a Câmara de Vereadores de Rio Grande aprovou a instalação de um monumento em praça pública para homenagear o Gal. Golbery do Couto e Silva. A proposição poderia entrar para o conjunto de decisões que “nunca saem do papel”, como aquelas que favorecem a população, enfrentam os monopólios privados, mas a base de sustentação não vota favorável. Mas por que homenagear uma figura da Ditadura Militar neste momento histórico de Rio Grande?

Primeiro, a direita de Rio Grande surpreende ao assumir, finalmente, sua relação umbilical com os tempos da Ditadura. Os democratas de última hora passaram décadas sem explicar sua posição durante os anos de chumbo, negando seu parentesco político com aqueles que cercearam os direitos constitucionais dos brasileiros. A máscara caiu.
Segundo, a elite política papareia permanece mantendo a cidade ao lado do oficialismo e do conservadorismo. Em 2011, mais um exemplo dessa postura: enquanto o RS e o Brasil lembram os 50 anos da Cadeia da Legalidade, movimento que adiou o golpe, a direita de Rio Grande pretende homenagear um golpista de primeira linha. Além disso, 2011 também é o ano em que uma ex-guerrilheira é empossada presidente da república. A direita tinha que reagir.
Terceiro, os defensores da memória do Gal. Golbery alegam que não estão festejando o autoritarismo do ilustre rio-grandino, mas suas ações em benefício da sua cidade natal. É a velha ideia paternalista: as maldades, entre elas tortura, assassinato, violação dos direitos constitucionais, são compensadas por algumas bondades materiais. Afinal, a Ditadura Militar foi instaurada para o bem do país e do povo. Essa visão mantém vivo o golpismo na política brasileira, um dia eles podem "precisar" fazer isso de novo. Golbery foi um torturador? Não, porém sustentou na política e na teoria um regime torturador.
Por fim, o momento positivo de Rio Grande tem relação com os dois governos do Presidente Lula e prossegue com o Governo Dilma. Bilhões estão sendo investidos na cidade e tudo desencadeado por setores políticos que combatiam a Ditadura. Além disso, a extrema pobreza herdada dos anos 70, 80 e 90 está sendo erradicada. 20 anos de Ditadura Militar e 10 anos de neoliberalismo aprofundaram a Metade Sul na paralisia e desesperança. Esse quadro está mudando rapidamente. Diante disso, qual é a referência da direita papareia? O Gal. Golbery do Couto e Silva. Eles precisam encontrar um novo ícone, pois esse não conta com grande popularidade entre os bem informados da cidade.